A obra como uma indústria

Publicado por ecohabitar a December 30, 2010 em Design Inteligente, Opinião | Seja o primeiro a comentar

in Techné

Em entrevista concedia à Techné o Engenheiro Carlos Schettert relativiza a situação atual da construção civil de escassez de mão de obra. Para ele, essa não é - ou pelo menos não deve ser - a maior preo­cupação do setor. A principal lição que toda a cadeia da construção deve aprender neste momento de grande crescimento é o planejamento.

Segundo Schettert o futuro da construção no Brasil será a almejada montagem no canteiro. Por enquanto, o engenheiro analisa que estamos na fase de desenvolvimento industrial, ainda tornando custos de sistemas industrializados compatíveis com o mercado. Aquele conceito bem conhecido de que obras na Europa ou nos Estados Unidos gastavam mais tempo em projeto e planejamento, enquanto no Brasil era o contrário, “já virou lenda”, conta Schettert. Hoje, não é admissível improvisação e retrabalho. Outros conceitos, como desempenho, sustentabilidade e coordenação modular, também foram discutidos pelo engenheiro na entrevista. Seguem alguns excertos da conversa:

A logística das obras ainda segue um padrão artesanal. Como é possível melhorar esse aspecto?
Repensando a obra como uma indústria. Temos que investir em equipamento, conceber um planejamento do canteiro, do transporte interno e dos processos produtivos, aproximando a cadeia produtiva, que é parte integrante. Utilizo ferramentas como Just in Time e a empresa [fornecedora] como parceira. Por exemplo, não uso mais lata de tinta, e sim um saco plástico com volume adequado e entregue no tempo adequado para cobrir determinado ambiente. Assim, elimino o desperdício, além do problema do lixo tóxico.

(…)

Sua construtora vem sentido a necessidade de incorporar processos mais industrializados?
A industrialização tem que ser um conceito genérico, como um processo produtivo bem desenhado. Posso citar exemplos de casos clássicos, como armadura dobrada, até processos mais elaborados como kanban, que é uma ficha em que se desenha a alvenaria, o número certo de blocos. O operário segue a lista, recebe a quantidade certa de material, e não há desperdício. Começa, assim, uma redução significativa das perdas, do tempo, do retrabalho. A industrialização sempre vai agregar valor para as empresas: diretamente, pelos resultados práticos, ou indiretamente, como um conceito a dar resultado no futuro.

(…)

Como equilibrar custo e desempenho em um empreendimento?
Desempenho deve ser pré-requisito. A partir dele, deve-se buscar custos competitivos, e, consequentemente, os processos que melhor se ajustem. Desempenho é primordial, não se admite mais o custo pós-obra. Então, são necessários produtos e processos com desempenho, para que o cliente final fique satisfeito. A esmagadora maioria das pessoas que compram um imóvel está fazendo a compra de sua vida. Esse produto tem que apresentar bom desempenho. Não se pode fazer, em nome da velocidade ou da demanda extraordinária, algo que não tenha desempenho.

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Quais são os gargalos técnicos da construção atual? O que precisa ser atacado com maior urgência?
Hoje nosso maior problema é a aprovação de projetos. Quando começou essa demanda extraordinária de obras, os órgãos e concessionárias que aprovam os projetos não cresceram na mesma proporção que nós, eles ainda contam com a mesma estrutura. Um projeto que era aprovado em seis meses, hoje leva um ano; uma licença ambiental que saía em 90 dias hoje também leva mais de um ano. E nós multiplicamos por dez nossa capacidade produtiva.

E na produção, quais as dificuldades?
Além do gargalo da mão de obra, há um gargalo em alguns insumos, mas algumas fábricas estão se ajustando. No passado recente, o cimento e o aço subiram, começamos a importar, e a recessão do mercado internacional favoreceu a importação, pois está sobrando material no exterior. Um terceiro gargalo são os repasses bancários. A velocidade com que nós construímos e realizamos processos de transferência de contrato com os usuários está maior que a capacidade dos bancos de processá-las. Quando o cliente vai assinar o contrato, o banco leva muito tempo. É inadmissível.

(…)

A construtora já sente uma demanda dos compradores para que haja sistemas ou ações sustentáveis nos novos empreendimentos? Qual é a maior procura?
Vejo uma evolução. É preciso que comecemos a pensar sistemicamente no nosso envolvimento com o meio ambiente, estamos envolvidos no processo ambiental como um todo. Isso vai desde a concepção do projeto ao resíduo final. Significa não só aproveitar a água de chuva em reservatórios separados, mas implementar sistemas factíveis com os conceitos de sustentabilidade. Se um terreno não propicia certo sistema, não tem sentido aplicá-lo. Nossos projetos, nossa legislação, nossa exigência e cultura têm que evoluir paralelamente.

E em relação aos clientes, eles já procuram por empreendimentos que apresentem ações sustentáveis?
No ano passado, quando assistimos a grandes catástrofes em todo o planeta, houve um bombardeio na mídia sobre a exigência e conscientização da população como um todo. Obviamente, começamos a perceber que o processo, como vem sendo feito, precisa evoluir, para que possamos conviver no meio ambiente. Essa evolução passa desde o conceito mais radical ao mais tolerante. Estamos buscando um equilíbrio adequado para que possamos potencializar nossas reservas com desenvolvimento humano. O assunto é amplo e complexo, mas é indispensável e urgente. Nas obras de interesse social, a exigência é menor, mas deveria haver uma conscientização dos órgãos registradores, dos órgãos produtores, das empresas e fornecedores.

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Publicado por ecohabitar a December 15, 2010 em Design Inteligente, Eficiência Energética, Opinião, Uso Racional da Água | Leia o primeiro comentário

No mercado brasileiro, à semelhança do que já sucedeu em outras latitudes, assiste-se a uma progressiva universalização do crédito. No caso do mercado imobiliário, o montante total financiado no país bate novos recordes a cada trimestre, os prazos de financiamento estendem-se a 30 anos, o percentual do empréstimo já bate nos 80% do preço do imóvel (em alguns casos chega mesmo à totalidade) e construtoras que financiam diretamente possibilitam mesmo pagar o valor de entrada em até 10 vezes no cartão de crédito.

Chegamos assim a uma situação impensável há poucos anos: o cidadão comum pode assinar a escritura de compra do seu imóvel sem ter que meter a mão no bolso. O critério que orienta a compra deixa de ser o valor da etiqueta com o preço e passa a ser o montante da parcela mensal a ser paga. Ante a perspetiva de uma casa nova, a pergunta a ser feita deixa de ser “será que tenho o suficiente para comprar?” para passar a algo como “será que terei todos os meses o suficiente para conseguir mantê-la?“.

Nesta nova realidade, o custo do imóvel passa a ser o valor da prestação mensal do financiamento acrescida dos demais encargos mensais como o seguro obrigatório, condomínio, contas de água, luz, etc.  Assim, dois imóveis com o mesmo preço de venda e financiados nas mesmas condições podem, no entanto, ter custos bem diferentes dependendo de como o projeto arquitetônico de cada um tratou temas como eficiência energética, racionalização do consumo de água ou simplicidade de manutenção.

Em um mercado imobiliário em que a grande maioria ainda projeta e constrói com foco na venda e não na futura utilização do imóvel, unidades menos gastadoras ganham uma clara vantagem competitiva que poderá se acentuar se se confimarem as projeções para os próximos anos de elevação de preços de água e eletricidade acima da inflação.