Rede Estúpida

Publicado por ecohabitar a July 27, 2011 em Design Inteligente, Eficiência Energética, Opinião | Seja o primeiro a comentar

Na rotina contemporânea existem muito poucos itens que consumimos todos dias e que deixamos para acertar no final do mês. Água encanada e eletricidade fazem parte desse seleto clube. Uma das implicações desse fato é que, relativamente a esses dois itens essenciais, não temos a menor ideia do que efetivamente estamos pagando quando o consumo de um mês inteiro de diversos aparelhos elétricos, lâmpadas, chuveiros, geladeiras, micro-ondas, etc. vem embolado em uma mesma conta. Para o cidadão comum, esta situação, de tão corriqueira, não causa espanto.

No entanto este é um cenário semelhante a passarmos todos os dias no supermercado, levar tudo o que temos vontade e no final do mês chegar a conta com o total, sem qualquer distinção entre sabão e arroz, leite e papel higienico, feijão e lâmpadas elétricas. Como reagiriamos?

É de fato inacreditável que na época que nos disponibiliza de forna tão acessível a fibra ótica, carros (e celulares!) equipados com GPS, Google Street View, etc., as concessionárias de eletricidade ainda ofereçam o mesmo serviço de há mais de 50 anos. Os mesmos postes, com o mesmo emaranhado de fios, os mesmos problemas com galhos de árvores (e vento, e chuva), os mesmos funcionários que vão medir no reloginho o consumo mensal. Tem mais: quando há uma queda de energia as concessionárias apenas tomam conhecimento do fato através dos telefonemas dos seus clientes irados e para identificar o lugar exato do problema é necessário que um funcionário da empresa saia de carro e ir procurando, ao longo de toda a extensão da linha.

Comparemos esta situação com o setor de telefonia e vejamos a evolução de um e de outro no tal espaço de 50 anos. Vivemos em um país em que os problemas do setor elétrico ainda se prendem com explosões de bueiros da Light no Rio e apagões generalizados cada vez que chove ou venta e as concessionárias, impávidos colossos, perante tal cenário, continuam deitadas eternamente em berço esplêndido. As smart grids (redes inteligentes) são uma miragem distante e representam despesa indesejada para empresas míopes e acomodadas nos seus monopólios. As redes distribuidoras aqui seguem estúpidas.

Lacuna Verde

Publicado por ecohabitar a April 29, 2011 em Eficiência Energética, Opinião | Seja o primeiro a comentar

A OgilvyEarth é uma empresa de consultoria em sustentabilidade que atua sobretudo nos mercados norte-americano e chinês. Pesquisando sobre os hábitos do consumidor médio publicou recentemente um estudo denominado Mainstream Green em que identificou o que chamou de “Lacuna Verde” (Green Gap) que mais não é do que a diferença entre as intenções e as ações efetivas dos consumidores no que respeita a consumo e práticas sustentáveis.  No caso dos norte-americanos, a OgilvyEarth avança com os seguinte números: 82% declaram boas intenções “verdes” mas apenas 16% as coloca em prática. Os restantes 66% constituem o “Middle Green,” (o “Centrão Verde”) que quer fazer mais mas acaba não fazendo. É esta imensa maioria silenciosa que constitui o objeto de estudo da segunda parte do documento onde se procuram explicações para essa Lacuna Verde e se propõem algumas soluções para a reduzir. Vale a pena prestar atenção até porque quase todas caem como uma luva no mercado brasileiro. Comecemos pelas razões que causam a lacuna:

  • O tema ainda é visto como um nicho para pelo menos 50% dos americanos que consideram o assunto coisa de hippies ou de elites ¹;
  • O preço é o principal obstáculo e os consumidores acabam não aceitando pagar o extra (a “taxa da sustentabilidade“) por um produto “verde” se o desempenho for o mesmo do produto tradicional;
  • A culpabilização muitas vezes utilizada por marketeiros da sustentabilidade para convencer o consumidor acaba funcionando ao contrário: à medida que aumenta a pressão da culpa o cidadão refugia-se no conforto da ignorância e fecha-se para o tema;
  • O assunto é visto como mais feminino do que masculino para 82% dos inquiridos o que leva alguns homens a evitar tomar algumas atitudes que possam ser consideradas pouco masculinas;
  • As marcas tradicionais são preferidas por 73% dos americanos, tornando difícil a entrada no mercado de empresas inovadoras com preocupações ambientais;
  • o tema do Carbono (créditos, mercado, pegada, etc.) apresenta-se muito confuso para 82% dos americanos que não têm a menor idéia de como se calcula a sua “pegada”.

Com estes resultados em mãos o estudo da OgilvyEarth propõe em seguida algumas medidas que considera úteis para que o tema deixe de ser marginal e as atitudes sustentáveis passem a ser padrão. Segundo a consultoria, será esse o caminho a trilhar por todos aqueles interessados em reduzir a Lacuna.

  • Tirar o assunto de nichos e torná-lo normal, dirigido a pessoas normais, fará com que ele se torne um movimento de massas (um bom primeiro passo é acabar com o gueto das seções “verde” ou “sustentabilidade” dos jornais e revistas);
  • Tornar o assunto pessoal, mostrar a sua aplicabilidade prática no dia-a-dia das pessoas contribuirá para a sua familiarização com o público e, portanto, para um maior conhecimento e aceitação. Os ursos polares são importantes mas moram lá longe no Ártico.
  • Atualmente o ônus da escolha é de quem opta pelo “verde”. Se mudarmos o padrão e o “normal” passar a ser sustentável, os consumidores não precisarão da atual atitude assertiva que faz com que muitos se omitam (o exemplo das sacolas plásticas é bem ilustrativo deste ponto);
  • Eliminar a “taxa de sustentabilidade” e acabar com a penalização para quem toma boas atitudes. Produtos caros, verdes ou não, afugentam o público. A grande maioria dos consumidores compra com a calculadora na mão;
  • “Corromper” o consumidor consciente com ofertas, descontos ou programas de pontos é uma estratégia válida e que sempre dá bons resultados;
  • A punição para atitudes “incorretas” deverá ser feita com extremo cuidado. Alguns agentes têm exagerado na dose e na frequência da culpabilização e das penas, o que tem levado a resultados perversos;
  • Apostar na excelência do desempenho, na inovação e na alta tecnologia dos produtos “verdes” contribuirá para a sua popularização;
  • A terminologia “verde”, “sustentável”, “ecológico”, etc. não precisa ser tão onipresente. O seu abuso criou um estigma e afasta o consumidor médio que a associa a grupos sociais muito específicos;
  • Tornar o tema mais “amistoso” para os homens eliminará a resistência que ainda subsiste em parte da metade masculina do mercado consumidor;
  • Desmistificar o assunto e torná-lo fácil de entender para o grande público é condição essencial para que ele se generalize. Explicações complicadas sobre pegada de carbono só vão gastar pilha de controle remoto;
  • Transparência, verdade e simplicidade funcionarão muito melhor do que uma imensa profusão de selos e certificações cuja maior contribuição, até agora, foi a de fomentar a confusão e a desconfiança com que o grande público olha o assunto;
  • O discurso altruísta e virtuoso incomoda e chateia o seu público-alvo. A mudança virá através de palavras e ações cativantes e agradáveis.

¹ Leia o que escrevemos sobre o assunto em “Nem Flintstones nem Jetsons

adaptado de Jetson Green

A obra como uma indústria

Publicado por ecohabitar a December 30, 2010 em Design Inteligente, Opinião | Seja o primeiro a comentar

in Techné

Em entrevista concedia à Techné o Engenheiro Carlos Schettert relativiza a situação atual da construção civil de escassez de mão de obra. Para ele, essa não é - ou pelo menos não deve ser - a maior preo­cupação do setor. A principal lição que toda a cadeia da construção deve aprender neste momento de grande crescimento é o planejamento.

Segundo Schettert o futuro da construção no Brasil será a almejada montagem no canteiro. Por enquanto, o engenheiro analisa que estamos na fase de desenvolvimento industrial, ainda tornando custos de sistemas industrializados compatíveis com o mercado. Aquele conceito bem conhecido de que obras na Europa ou nos Estados Unidos gastavam mais tempo em projeto e planejamento, enquanto no Brasil era o contrário, “já virou lenda”, conta Schettert. Hoje, não é admissível improvisação e retrabalho. Outros conceitos, como desempenho, sustentabilidade e coordenação modular, também foram discutidos pelo engenheiro na entrevista. Seguem alguns excertos da conversa:

A logística das obras ainda segue um padrão artesanal. Como é possível melhorar esse aspecto?
Repensando a obra como uma indústria. Temos que investir em equipamento, conceber um planejamento do canteiro, do transporte interno e dos processos produtivos, aproximando a cadeia produtiva, que é parte integrante. Utilizo ferramentas como Just in Time e a empresa [fornecedora] como parceira. Por exemplo, não uso mais lata de tinta, e sim um saco plástico com volume adequado e entregue no tempo adequado para cobrir determinado ambiente. Assim, elimino o desperdício, além do problema do lixo tóxico.

(…)

Sua construtora vem sentido a necessidade de incorporar processos mais industrializados?
A industrialização tem que ser um conceito genérico, como um processo produtivo bem desenhado. Posso citar exemplos de casos clássicos, como armadura dobrada, até processos mais elaborados como kanban, que é uma ficha em que se desenha a alvenaria, o número certo de blocos. O operário segue a lista, recebe a quantidade certa de material, e não há desperdício. Começa, assim, uma redução significativa das perdas, do tempo, do retrabalho. A industrialização sempre vai agregar valor para as empresas: diretamente, pelos resultados práticos, ou indiretamente, como um conceito a dar resultado no futuro.

(…)

Como equilibrar custo e desempenho em um empreendimento?
Desempenho deve ser pré-requisito. A partir dele, deve-se buscar custos competitivos, e, consequentemente, os processos que melhor se ajustem. Desempenho é primordial, não se admite mais o custo pós-obra. Então, são necessários produtos e processos com desempenho, para que o cliente final fique satisfeito. A esmagadora maioria das pessoas que compram um imóvel está fazendo a compra de sua vida. Esse produto tem que apresentar bom desempenho. Não se pode fazer, em nome da velocidade ou da demanda extraordinária, algo que não tenha desempenho.

(…)

Quais são os gargalos técnicos da construção atual? O que precisa ser atacado com maior urgência?
Hoje nosso maior problema é a aprovação de projetos. Quando começou essa demanda extraordinária de obras, os órgãos e concessionárias que aprovam os projetos não cresceram na mesma proporção que nós, eles ainda contam com a mesma estrutura. Um projeto que era aprovado em seis meses, hoje leva um ano; uma licença ambiental que saía em 90 dias hoje também leva mais de um ano. E nós multiplicamos por dez nossa capacidade produtiva.

E na produção, quais as dificuldades?
Além do gargalo da mão de obra, há um gargalo em alguns insumos, mas algumas fábricas estão se ajustando. No passado recente, o cimento e o aço subiram, começamos a importar, e a recessão do mercado internacional favoreceu a importação, pois está sobrando material no exterior. Um terceiro gargalo são os repasses bancários. A velocidade com que nós construímos e realizamos processos de transferência de contrato com os usuários está maior que a capacidade dos bancos de processá-las. Quando o cliente vai assinar o contrato, o banco leva muito tempo. É inadmissível.

(…)

A construtora já sente uma demanda dos compradores para que haja sistemas ou ações sustentáveis nos novos empreendimentos? Qual é a maior procura?
Vejo uma evolução. É preciso que comecemos a pensar sistemicamente no nosso envolvimento com o meio ambiente, estamos envolvidos no processo ambiental como um todo. Isso vai desde a concepção do projeto ao resíduo final. Significa não só aproveitar a água de chuva em reservatórios separados, mas implementar sistemas factíveis com os conceitos de sustentabilidade. Se um terreno não propicia certo sistema, não tem sentido aplicá-lo. Nossos projetos, nossa legislação, nossa exigência e cultura têm que evoluir paralelamente.

E em relação aos clientes, eles já procuram por empreendimentos que apresentem ações sustentáveis?
No ano passado, quando assistimos a grandes catástrofes em todo o planeta, houve um bombardeio na mídia sobre a exigência e conscientização da população como um todo. Obviamente, começamos a perceber que o processo, como vem sendo feito, precisa evoluir, para que possamos conviver no meio ambiente. Essa evolução passa desde o conceito mais radical ao mais tolerante. Estamos buscando um equilíbrio adequado para que possamos potencializar nossas reservas com desenvolvimento humano. O assunto é amplo e complexo, mas é indispensável e urgente. Nas obras de interesse social, a exigência é menor, mas deveria haver uma conscientização dos órgãos registradores, dos órgãos produtores, das empresas e fornecedores.

matéria completa aqui

Leia mais sobre construção modular e industrializada:

Habitação industrial: alguns casos

Casa: um objeto industrial

Quanto gasta a sua casa: um novo paradigma imobiliário

Publicado por ecohabitar a December 15, 2010 em Design Inteligente, Eficiência Energética, Opinião, Uso Racional da Água | Leia o primeiro comentário

No mercado brasileiro, à semelhança do que já sucedeu em outras latitudes, assiste-se a uma progressiva universalização do crédito. No caso do mercado imobiliário, o montante total financiado no país bate novos recordes a cada trimestre, os prazos de financiamento estendem-se a 30 anos, o percentual do empréstimo já bate nos 80% do preço do imóvel (em alguns casos chega mesmo à totalidade) e construtoras que financiam diretamente possibilitam mesmo pagar o valor de entrada em até 10 vezes no cartão de crédito.

Chegamos assim a uma situação impensável há poucos anos: o cidadão comum pode assinar a escritura de compra do seu imóvel sem ter que meter a mão no bolso. O critério que orienta a compra deixa de ser o valor da etiqueta com o preço e passa a ser o montante da parcela mensal a ser paga. Ante a perspetiva de uma casa nova, a pergunta a ser feita deixa de ser “será que tenho o suficiente para comprar?” para passar a algo como “será que terei todos os meses o suficiente para conseguir mantê-la?“.

Nesta nova realidade, o custo do imóvel passa a ser o valor da prestação mensal do financiamento acrescida dos demais encargos mensais como o seguro obrigatório, condomínio, contas de água, luz, etc.  Assim, dois imóveis com o mesmo preço de venda e financiados nas mesmas condições podem, no entanto, ter custos bem diferentes dependendo de como o projeto arquitetônico de cada um tratou temas como eficiência energética, racionalização do consumo de água ou simplicidade de manutenção.

Em um mercado imobiliário em que a grande maioria ainda projeta e constrói com foco na venda e não na futura utilização do imóvel, unidades menos gastadoras ganham uma clara vantagem competitiva que poderá se acentuar se se confimarem as projeções para os próximos anos de elevação de preços de água e eletricidade acima da inflação.

Vanderley John sobre a Construção Civil no Brasil: Quase Insustentável

Publicado por ecohabitar a November 12, 2010 em Atualidades, Opinião | 4 Comentários

Na edição de Setembro da revista Techné, que aqui já referimos, inclui uma excelente entrevista com o Prof. Vanderley John da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo onde este alerta para o greenwashing, denuncia um mercado de venda de selos e critica o carater artesanal da produção na construção. Reproduzimos partes da entrevista abaixo, com a recomendação que se siga o link colocado no final do texto para ler a matéria completa.

Na construção, onde o greenwashing se encontra?

Há muitos selos cujos significados não conhecemos. Estão começando a proliferar selos de materiais, e existirão cada vez mais. As pessoas compram com selo porque, por um lado, querem um indicativo de que aquele produto atende melhor ao problema de sustentabilidade. Por outro lado, muita gente compra porque quer ser percebida como uma pessoa que se preocupa com sustentabilidade. Existem até selos do tipo “amigo do meio ambiente” que têm um critério muito objetivo e inquestionável: você paga, você leva. (…)

No que a construção vem afetando o ambiente, e como ela pode contribuir?

No Brasil, aproximadamente metade da extração de matérias-primas não renováveis acaba na construção. As obras são muito intensivas em uso de materiais. A geração de resíduos na construção está bem maior do que resíduos de lixo urbano, estamos demolindo mais e construindo mais. No Brasil, a construção é o setor industrial que mais gera resíduos. Por exemplo, o aço utilizado gerou resíduos também na fábrica, da mesma forma o alumínio, e assim por diante. De cada 1 m³ de madeira utilizado, outro 1 m³ ficou aos pedaços, para trás.

Já existe uma garantia em relação ao fornecedor de materiais, uma certificação ou selo?

Eu não acredito que selo tenha um papel relevante na promoção da sustentabilidade de um país em desenvolvimento. Não existe nenhuma demonstração no mundo de que qualquer selo melhore o mercado. O que melhora o mercado é política pública, política setorial de médio prazo, consistente, com metas aplicadas a toda a construção. Em tese, os selos deveriam identificar produtos muito mais ecoeficientes que outros, mas alguns não o fazem. Além disso, os selos de edifícios se aplicam a obras grandes, corporativas etc., que representam uma parcela minúscula da construção brasileira e são tão sofisticadas e diferenciadas, que pouco inspiram outras. Uma solução para um prédio de US$ 100 milhões não é transferida para um prédio de escritórios de quatro pisos em uma cidade média. (…)

Não há muita compatibilidade entre a realidade  do Brasil e Europa, Estados Unidos. Até onde os modelos importados  de selo funcionam?

(…)  A sustentabilidade tem problemas globais, mas as soluções têm que ser localmente adequadas. No Brasil, a opção para diminuir a poluição dos automóveis é o uso do etanol, e nos Estados Unidos é o carro elétrico. Mas em São Paulo há prédios que, para se certificar, colocam tomadas para carros elétricos, que não existem. Fazem isso porque é um ponto barato. O problema das certificações é que elas precisam ser adequadas não só à realidade local mas às estratégias selecionadas para o país.

Há outros exemplos de soluções importadas que não funcionam?

Muitas pessoas colocam estacionamento de bicicletas mesmo que isso não faça sentido. Em Boston funciona, mas não na Cidade do México nem em São Paulo, que é quente e chuvosa no verão, não é plana e não tem ciclovia. Mas é um ponto barato, e a cidade está cheia de estacionamentos de bicicletas vazios. Isso é eticamente inaceitável. (…)

Há sistemas alternativos de geração de energia mais eficientes? Vale a pena adotar sistemas de aquecimento solar em edifícios habitacionais e casas?

Existe um grande exagero quando se fala nos benefícios econômicos pela adoção de aquecedores solares para população de baixa renda, parcialmente porque a tarifa elétrica da baixa renda é fortemente subsidiada. Porém, em muitas regiões é relevante. Do ponto de vista ambiental, não se reduz muito a emissão de CO2, mas se economiza investimento em geração de energia. Um chuveiro de R$ 24 pode custar US$ 2 mil em investimento em geração de energia para o governo. Faz sentido o uso de energia solar nos locais onde é necessária água quente. No Norte e Nordeste, talvez água quente não seja prioritário; no Sudeste é importante. Há problemas também para se instalar o aquecedor solar em edifícios multifamiliares, particularmente na integração com a companhia de água. (…)

Projetos que adotam conceitos de sustentabilidade ficam mais caros?

Sustentabilidade é um equilíbrio entre impacto ambiental, impacto social e impacto econômico. Se for economicamente inviável, não é sustentável. Pode ser ecoeficiente, verde, mas o compromisso de sustentabilidade em cada obra é: o que se pode fazer dentro do orçamento. Sempre é possível fazer muita coisa dentro do orçamento, como reduzir desperdício em obra. O SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo) mostrou que gestão de resíduos em canteiro baixa o custo da obra. Uma confusão vem do conceito de edifícios verdes, no qual não se preocupa com o aspecto social e o econômico, só é green, além de certificar soluções muito avançadas, que se destacam e são bastante diferentes. Construção sustentável sempre cabe no orçamento; se não cabe, não é sustentável. (…)

Qual é a maior dificuldade em relação à escolha de materiais? É saber a procedência?

Em primeiro lugar, ninguém coloca na equação a questão da informalidade, da procedência, da qualidade. Há telhas em manuais de meio ambiente que não resistem à água ou ao sol. São produtos reais no mercado. Mas, como elas são recicladas, entram em qualquer lista de certificação, porque material reciclado é quase sagrado. Isso é deprimente. E pessoas gastam muito mais para utilizar esses produtos, recomendado por um especialista em green building, pago pelo Estado. A única forma de selecionar materiais e soluções construtivas é fazer análise do ciclo de vida, e, para isso, é necessário fazer uma base de dados. (…)

Parece que sempre o setor da construção civil precisa de muitos primeiros passos, muita organização básica. Você vê desta forma?

Estou falando de coisas “picadas”, mas quando se junta tudo forma-se uma estratégia. Começa mudando a mentalidade das lideranças, depois a mentalidade de outras pessoas, e em certo tempo isso é incorporado no dia a dia da empresa. Fazemos sem nos dar conta. Conversando com outros setores, acho que o setor da construção é o que está discutindo mais a sustentabilidade. As tarefas serão grandes para todos nós, mas é uma oportunidade. E devemos começar a valorizar a criatividade de engenheiros. A criatividade está segregada nos setores de marketing e publicidade, e ela terá que vir para a engenharia. São oportunidades. Um dos melhores aspectos da sustentabilidade é que, embora haja várias maneiras de se ganhar a vida, algumas delas dão orgulho à pessoa.

entrevista completa aqui (necessário cadastramento)

Um ogro é um ogro: de novo os chuveiros elétricos

Publicado por ecohabitar a May 26, 2010 em Eficiência Energética, Opinião, Uso Racional da Água | 10 Comentários

A agência USP de notícias divulgou as conclusões do estudo Avaliação do consumo de insumos (água, energia  elétrica e gás) em chuveiro elétrico, aquecedor a gás, chuveiro híbrido solar, aquecedor solar e aquecedor de acumulação elétrico, elaborado pelo Centro Internacional de Referência em Reuso de Água (Cirra) da Escola Politécnica (Poli) da USP. De acordo com os autores, o estudo enterra definitivamente a fama do chuveiro elétrico como vilão da conta de energia. A notícia repercutiu favoravelmente na imprensa inclusive naquela mais especializada e atenta ao tema. A explicação apresentada para a maior eficiência do chuveiro elétrico face aos outros sistemas em “competição” é o seu baixo consumo de água, ainda de acordo com o estudo, cujas conclusões mais detalhadas estão disponíveis no site do Grupo de Chuveiros Elétricos da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) que, aliás, apoiou a iniciativa. No entanto…

Em Abril do ano passado a mesma entidade havia já divulgado um relatório parcial sobre a pesquisa em causa anunciando os resultados do primeiro trimestre, idênticos aos de agora, antevendo idênticas conclusões e com uma cobertura mediática semelhante. Na época uma nota emitida pelo Instituto Vitae Civilis criticou fortemente a metodologia adotada no estudo afirmando mesmo que “a divulgação da informação com a parcialidade apresentada pelo grupo de pesquisadores é uma postura incompatível com os preceitos éticos que devem nortear a pesquisa acadêmica“. Esse assunto, na altura, foi também objeto de um post neste blog. Como consideramos os argumentos apresentados aínda válidos, repetimos alguns excertos:

(…) se o fator ‘consumo de água’ é o que explica a diferença de custo do banho entre o chuveiro elétrico e o aqucedor solar, e se o estudo fixa vazões menores para o chuveiro elétrico e maiores para todos os outros equipamentos, é claro que nesta configuração os outros equipamentos apresentarão custos maiores para um banho de mesma duração (…)

(…) o estudo compara chuveiros elétricos de vazão baixa (média de 4 litros por minuto ao longo do estudo) com um aquecedor solar de vazão mais elevada (8,7 litros por minuto), sem sequer trazer uma nota de pé de página observando que existem no mercado chuveiros elétricos com vazões de entre 8 a 10 litros por minuto. Esta consideração seria importante porque, certamente, se o chuveiro utilizado no estudo fosse um destes, os resultados seriam bastante diferentes.(…)

(…) Não deixa de ser curiosa a escolha dos modelos de chuveiro utilizados. Para o chuveiro elétrico foi usado um modelo da Cardal denominado “compacta“. Para os outros tipos de chuveiro (aquecedor de passagem a gás, aquecedor solar e boiler) foi utilizado um outro modelo da mesma Cardal, este denominado Big Ducha (!). Ante a curiosa nomenclatura dos modelos, algum observador mais malicioso, sabendo quem encomendou o estudo poderia sugerir que o mesmo estaria viciado de início… (…)

Para finalizar, apenas duas notas:

1) seria interessante que fossem disponibilizados os dados totais do estudo, tal como foi feito para o relatório parcial aqui e não apenas as conclusões do CIRRA e/ou do Grupo de Chuveiros da ABINEE.

2) por se tratar de um assunto que envolve direitos do consumidor e afeta toda a população brasileira, é de lamentar a continuada postura passiva de órgãos de comunicação com responsabilidades cujo trabalho, no caso em questão, se limitou em duas ocasiões a transcrever press-releases de entidades com óbvios interesses na matéria.

Selos: sustentabilidade ou marketing?

Publicado por ecohabitar a May 13, 2010 em Opinião | Leia o primeiro comentário

Em um comentário a este post, o leitor Joaquim Alvarenga levanta uma questão importante e muito recorrente: como podem os consumidores saber se os selos certificadores defendem mesmo a sustentabilidade ou se se trata apenas de marketing?

No caso em questão, e com a informação de que dispomos, parece tratar-se de uma guerra de marketing.  Afinal, os selos de sustentabilidade também constituem uma marca e como qualquer marca são mais ou menos valorizados dependendo do prestígio conseguido. Assim, não é de estranhar a competição dessas duas marcas pela possibilidade de ostentar a sua placa certificadora em um dos empreendimentos imobiliários mais mediáticos de São Paulo.

Quanto à dúvida do leitor, trata-se de uma questão de credibilidade. É inegável que os selos em questão são emitidos por entidades que desenvolvem trabalho sério e o processo de obtenção do certificado é longo e exigente. No entanto, alguns questionamentos têm sido apontados à confiabilidade das certificações: desde a desadequação à realidade brasileira, por serem adaptações de modelos estrangeiros, ao fato de serem concedidas apenas com base em previsões de consumo ou ainda de deixarem pouco claro o real conteúdo do certificado que emitem. No entanto, apesar das críticas recebidas, cremos que os selos certificadores cumprem um papel importante e que é aquele a que se propuseram de início: facilitar a vida ao consumidor leigo. O cidadão comum, não tendo conhecimentos técnicos sobre consumo de energia, economia de água ou emissão de carbono, quer poder confiar que se adquirir o imóvel com o selo X estará fazendo uma escolha acertada, de acordo com esses critérios. Voltando ao início, isso sucederá enquanto os selos e respetivas entidades credenciadoras conseguirem manter credibilidade no mercado. Se cederem à tentação mercadológica, afrouxarem critérios e banalizarem as certificações, estas deixarão de ser um fator diferenciador e perderão credibilidade.

Para saber mais: o portal Arcoweb disponibiliza entrevista concedida por Daniela Corcuera, Márcio Porto, Paola Figueiredo e Vanderley John à revista PROJETO DESIGN onde falam sobre sustentabilidade nas atividades relacionadas à construção civil, nomeadamente sobre a importância de selos e certificações. Aqui.