Eduardo Souto de Moura: O local para o arquiteto é uma ferramenta

Publicado por ecohabitar a March 30, 2011 em Atualidades, Projetos | Seja o primeiro a comentar

A propósito da atribuição do Pritzker a Eduardo Souto de Moura, a PINIweb recupera uma entrevista que o arquiteto português concedeu à revista AU em dezembro de 2005. Publicamos alguns excertos em que Souto de Moura fala sobre o seu processo de projetar, estética vs função, arquitetura e natureza e Niemeyer.

Como é seu processo de projetar?
Varia conforme o programa. Geralmente são programas que conheço bem. Fiz muitas casas. Falo com o cliente para explicar bem, vou várias vezes ao sítio, mas não pretendo que o sítio me diga algo. Posso ter uma idéia desajustada, mas depois consigo ajustá-la. A solução nunca está no sítio, está em mim. Faço os primeiros desenhos e sempre faço maquete. Hoje é mais fácil, as fotos são feitas em digital e eu desenho por cima e testo nas maquetes as proporções. Depois faço um sistema de cruzamento de informações das primeiras idéias com as formas das maquetes. Muito cedo começo a trabalhar com os engenheiros para saber a viabilidade física e se a solução não é contra natura. Muitas vezes altero o projeto na própria obra. Por mais que os arquitetos tentem resolver os problemas há um que não conseguem: a escala, porque é de ordem subjetiva. Há um conjunto de fatores a serem analisados, o que a pessoa precisa e qual o seu território. Tem que se alternar a subjetividade com a objetividade até dizer: está lá. É um processo sinuoso. As primeiras idéias são rápidas, levo um fim de semana para projetar uma casa. Depois demora quatro, cinco anos para ela aparecer. Não penso em estética. Quem pensa em estética não chega lá. Estética é uma predisposição, um conjunto de problemas que não foram resolvidos. Se o poeta tem necessidade de escrever um poema, ele escreve. O arquiteto não pode dizer “vou fazer uma casa integrada na paisagem”. Ele tem que fazer uma construção muito friamente para resolver um problema. Se a disposição que ele usou ultrapassa o fenômeno do programa e da função, então surge a estética. A estética nunca é um ato voluntário.

Muitos arquitetos privilegiam a estética em detrimento da função…
Um professor meu que trabalhou com Niemeyer gostava de repetir uma frase dele: “a arquitetura tem que ser bela, se funcionar, melhor”. O fato é que isso não é verdade. Em qualquer croqui de Niemeyer a estrutura já está pronta. Cabe ao engenheiro direcioná-la. Portanto, a preocupação maior de Niemeyer não é a estética, ela é o suporte para que sua idéia exista. Quando ele desenha uma pessoa ao lado, já tem a escala.

O senhor tem uma relação de liberdade com a natureza. Costuma dizer que o “local é aquilo que você quer que ele seja”. Como se dá essa tensão entre a arquitetura e a natureza?
O lugar é uma construção mental. Fisicamente ele não interessa. É como uma pintura, uma natureza morta. Na medida em que eu giro a casa porque acho a vista para a montanha mais bonita, estou a construir o sítio. A montanha está entrando na construção da casa. Tenho que entender as ausências de energia no local. A construção do projeto é a construção de algo positivo. O objetivo é parecer que, no fim, o objeto está ali e não poderia deixar de estar ali. Se tirar, o sítio poderia ficar pior. O local para o arquiteto é um instrumento, uma ferramenta.

(…)

No caso do Estádio de Braga, o senhor mudou a implantação sugerida.
Entendi que ficava bem naquele morro. O monte precisava ser preenchido. Construí o monte de uma maneira diferente, cortei-o na forma de um estádio. Foi muito caro tirar a pedra. Fui criticado politicamente, economicamente e ecologicamente: ”na natureza não se toca”. A natureza só me interessa quando é operada pelo homem. Uma paisagem virgem não me comove. Posso até achá-la bonita. Há um poema de Herberto Helder, que nunca deve ter ouvido falar em Mies (van der Rohe), que diz “trabalhar na transformação, na transmutação, é obra nossa”.

in PINIweb

entrevista completa aqui

Declives: adequando os projetos à natureza

Publicado por ecohabitar a March 11, 2011 em Design Inteligente, Preservação Ambiental, Projetos | Seja o primeiro a comentar

in PINIweb:

Grande parte dos projetos brasileiros segue a cultura técnica da área plana, mesmo em locais com relevos acidentados. A crítica é do geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos e tem como alvo arquitetos, engenheiros responsáveis por implantações imobiliárias, urbanistas e empresas municipais e estaduais de habitação.

Segundo Rodrigues, os projetistas deveriam adequar os projetos à natureza, e não modificá-la de acordo com o projeto. O geólogo garante que, se utilizados métodos científicos e técnicas construtivas adequadas, locais com declividade de até 35% de declividade podem receber construções de forma segura. (…)

O fato é que não possuímos no país uma cultura técnica arquitetônica e urbanística especialmente adequada à ocupação de terrenos com acentuada declividade. Isso se verifica tanto nas formas espontâneas utilizadas pela própria população de baixa renda na autoconstrução de suas moradias, como também em projetos privados ou públicos de maior porte que contam com o suporte técnico de arquitetos e urbanistas e têm, apesar do erro básico e grave de concepção, sua implantação autorizada pelos órgãos municipais responsáveis.

Em ambos os casos (…) prevalece infelizmente a cultura técnica da área plana. Isto é, por meio de cortes e aterros obtidos por operações de terraplenagem obsessivamente se produzem os platôs planos sobre os quais irá ser edificado o empreendimento. Esse tem sido o cacoete técnico que está invariavelmente presente na maciça produção de áreas de risco nas cidades brasileiras que, de alguma forma, crescem sobre relevos mais acidentados.

É imperiosa a necessidade do urbanismo brasileiro incorporar em sua teoria e sua prática os cuidados com as características geológicas dos terrenos afetados. Essa nova cultura automaticamente levaria a uma estreita colaboração entre Arquitetura, Geologia e Geotecnia. Como concisa diretriz, podemos entender que está colocado o seguinte desafio à arquitetura e ao urbanismo brasileiros: usar a ousadia e a criatividade para adequar seus projetos à natureza, em vez de, burocraticamente e comodamente, pretender adequar a natureza a seus projetos.

matéria completa disponível aqui

Economizar em projeto?

Publicado por ecohabitar a February 28, 2011 em Design Inteligente, Projetos | Seja o primeiro a comentar

A construção de uma casa é com certeza o maior empreendimento que a maioria dos brasileiros poderá encarar em suas vidas, pela magnitude da empresa, pelo esforço financeiro e mesmo pela carga emocional que representa a construção de um lar que irá abrigar a sua família. Ante essa realidade seria de esperar que uma tal empreitada fosse rodeada dos maiores cuidados especialmente no que concerne ao planejamento da sua execução. Não é assim que acontece.

De fato, a grande maioria das construções que aprovam o projeto de arquitetura nas Prefeituras (e vamos só falar destas, excluindo desta abordagem as construções irregulares) opta por partir direto para a obra, passando por cima de projetos tão importantes quanto o de Cálculo Estrutural, o Projeto Elétrico e o Hidrosanitário, achando que com isso economiza dinheiro que poderá depois usar em acabamentos bacanas no banheiro. O que o cidadão não vê é que essa economia acaba saindo cara já durante a execução da obra.

Tomemos por exemplo o Projeto ou Cálculo Estrutural e o seu “irmão” Laudo de Sondagem de Solo e vejamos o que diz a respeito o site engenharia.com.br: O Projeto Estrutural, também chamado de Cálculo Estrutural é o dimensionamento das estruturas, geralmente de concreto armado, que vão sustentar a edificação, transmitindo as suas cargas ao terreno. Elaborado por um engenheiro civil, esse projeto é de fundamental importância, pois é o responsável pela segurança do prédio contra rachaduras (trincas) e desabamentos. Uma estrutura com lajes, vigas, pilares e fundações superdimensionados representa custos altos e não significa obrigatoriamente segurança. É preciso que haja um perfeito equilíbrio entre o concreto e o aço dentro dos elementos estruturais para que as peças sejam consideradas seguras e, conseqüentemente, toda a obra. Uma estrutura mal dimensionada pode, até, não cair, mas trazer problemas como trincas que são, na maioria das vezes, de solução muito difícil e cara.

Para elaboração do Projeto Estrutural será necessário, além do Projeto Arquitetônico, o Laudo de Sondagem. Esse documento, detalhadamente confeccionado por empresas especialistas em sondagens, apresenta o perfil do solo abaixo do nível zero, ou seja, com todos os tipos de camadas de solos e suas respectivas resistências à compressão. Este laudo é necessário para o dimensionamento adequado das fundações. Sem ele o engenheiro projetista de estruturas deverá prever, por medida de segurança, resistências do solo inferiores, aumentando conseqüentemente as bases das fundações.

Ora o que isto quer dizer é que a economia feita com o laudo de sondagem e o cálculo estrutural vai embora assim que, na execução dessas mesmas fundações, o encarregado pela obra duplica o ferro e o concreto que seriam necessários para o edifício em questão, por não querer ariscar na segurança.

Em Arquitetura, como em quase tudo o resto, um planejamento cuidadoso é via aberta para o sucesso da empreita. Com um conjunto completo de projetos o futuro proprietário da casa terá uma obra mais rápida, sem surpresas ou sustos de cariz financeiro e sem margem para improvisos. Corrigir um erro no decurso de uma obra, implica em jogar material fora, causar desperdício e várias horas de trabalho. Corrigir um erro em um projeto custa apenas um click.

Concreto armado, eu te amo: Casa da Madalena, Gaia, Portugal

Publicado por ecohabitar a September 21, 2010 em Design Inteligente, Projetos | 3 Comentários

O escritório português Carlos Castanheira & Clara Bastai, Arquitectos Lda não está no topo da lista dos preferidos dos fabricantes de revestimentos, tintas, ladrilhos, mosaicos e outros acabamentos. Eles preferem dar o protagonismo aos materiais brutos, como madeira e concreto e não se limitam a não ocultá-los. De fato, trata-se um exibicionismo frontal, sem subterfúgios, que já aqui mostramos na bela Casa Adpropeixe, um hino de amor à estrutura de madeira, e que agora trazemos, em versão concreto armado, na Casa da Madalena. Vejamos o que diz o autor do projeto:

O programa foi-me apresentado muito definido, claro: sala comum, cozinha, pequeno escritório, três quartos, espaço de garagem e alguns arrumos. Aproveitamento do espaço exterior e privacidade.
A Casa da Madalena e seu programa está organizada em três volumes.
O volume central onde estão organizadas as funções sociais, o volume a poente onde estão organizados os três quartos e dois banhos e o corpo ou anexo a nascente caracterizado pelo coberto de garagem e o volume de arrumos e área técnica. (…)

Optei por paredes estruturais em betão aparente e de aparência bruta (…) O resto foi preenchido por estruturas de madeira e vidro. (…)

No interior as paredes de betão deram lugar a paredes em gesso cartonado pintadas de branco, madeira de riga, estrutural nos tectos e caixilharias que também têm funções estruturais.
O piso é todo em xisto, o interior e o exterior, numa continuidade pretendida.
Cobertura e impermeabilização em chapa de cobre.

veja mais fotos e texto aqui e aqui

Casa da Madalena
Madalena, Vila Nova de Gaia, Portugal, 2003 - 2008

Carlos Castanheira & Clara Bastai, Arquitectos Lda

Construir entre árvores: Casa JD, Mar Azul, Argentina

Publicado por ecohabitar a June 2, 2010 em Design Inteligente, Preservação Ambiental, Projetos | Seja o primeiro a comentar

O balneário argentino de Mar Azul é o cenário de implantação desta casa, alocada em um terreno de 470 m² onde, antes da sua implantação, já se encontravam distribuídos 43 pinus. O programa dos proprietários era simples: muito baixo impacto no lote, orçamento apertado e mínima manutenção. O resultado conseguido pelo BAK Arquitectos, distinguido com o Grande Prêmio da 11ª Bienal de Arquitetura Argentina em 2006, demonstrou a possibilidade de se construir respeitando o meio-ambiente e com impacto mínimo no entorno. O modelo de projeto “entre árvores” de baixo custo virou tendência na região como já haviamos mostrado aqui.

Casa JD, Mar Azul, Buenos Aires, Argentina, 2004

BAK Arquitectos

informações de Contemporist e BAK Arquitectos

Residência em Otter Cove, Carmel, Califórnia

Publicado por ecohabitar a May 25, 2010 em Design Inteligente, Projetos | Seja o primeiro a comentar

Sem grandes comentários, porque absolutamente dispensáveis, algumas imagens da Residência em Otter Cove, Carmel, Califórnia. Integrada na falésia sobre o Pacífico, a Otter Cove Residence foi projetada pelo Sagan Piechota Architecture, com sede em San Francisco, Califórnia. Mais informações, fotografias e plantas podem ser vistas aqui e aqui

com informações de Arch Daily e Contemporist

Casa Entre Árvores, Mar Azul, Argentina

Publicado por ecohabitar a February 18, 2010 em Design Inteligente, Preservação Ambiental, Projetos | 3 Comentários

A região da Granja Viana, em Cotia, SP, tem uma forte identidade associada a qualidade de vida e harmonia com a natureza. O crescimento urbano que tem sofrido nos últimos anos tem sido causa de alguns conflitos, quase sempre relacionados com as abordagens construtivas adotadas por novos moradores, consideradas, em alguns casos, desajustadas ao perfil da região.

De fato, e apesar da legislação ambiental em vigor punir duramente o corte sem autorização de qualquer árvore, é frequente assistirmos ao desmate de lotes inteiros de um dia para o outro sem que, aparentemente, haja consequências para os infratores, uma vez que de imediato se iniciam os trabalhos de terraplanagem e fundações, seguindo a obra o seu curso normal. O argumento justificativo muitas vezes invocado é o de que a existência de árvores no lote onera demasiado ou mesmo inviabiliza a construção. Não é verdade.

Os arquitetos argentinos Martín Fernández de Lema e Nicolás Moreno Deutsch desenharam esta Casa entre Árvores em Mar Azul, balneário perto de Villa Gesell, a cerca de 400 km de Buenos Aires. O local, perto do mar, é de denso arvoredo e, para além do restritivo código de obras local, o programa solicitado aos arquitetos requeria especial cuidado na preservação das condições naturais do terreno bem como o aproveitamento máximo da sua cobertura vegetal.

O resultado, que pode ser conferido aqui, é um exemplo perfeito de conciliação de arquitetura com meio ambiente. Os proprietários do lote ganharam uma casa nova com paisagismo “antigo”, perfeitamente integrada com o entorno e com direito à sombra de pinus adultos na varanda. Todos os trabalhos de construção foram executados em torno das árvores pré-existentes sem que tal prejudicasse a qualidade do resultado final. A opção por concreto aparente e por acabamentos “minimalistas” contribuiu para o controle de custos da obra. Fotos adicionais, cortes e plantas da casa estão disponíveis aqui.

Casa Entre Árboles, Mar Azul, Buenos Aires, Argentina, 2006-2007

Martín Fernández de Lema, Nicolás Moreno Deutsch

com informações de ArchDaily