Desenvolvimento Urbano Sustentável: uma proposta para o Cinturão Verde

Publicado por Martha Nader a June 17, 2009 em Opinião, Preservação Ambiental |

A Região Metropolitana de São Paulo reúne 39 municípios em intenso processo de conurbação, formando uma mancha ocupada contínua e em expansão constante e desordenada. Com cerca de 20 milhões de habitantes (estimativas IBGE para 2008), é o maior centro urbano do Brasil e da América do Sul, e a sexta maior área urbana do mundo, sendo responsável por quase 60 % do PIB paulista, que, por sua vez, é o maior do Brasil. O crescimento dessa mancha avança em ondas mais ou menos concêntricas, ocupando, nas suas periferias, os espaços que oferecem menor resistência ao crescimento, comprometendo a qualidade do solo, da água e do ar dessas regiões.

O “Cinturão Verde de São Paulo”, nome pelo qual é conhecido o entorno vegetal razoavelmente preservado da megalópole, foi considerado em 1994 pela UNESCO, no âmbito do seu programa “O Homem e a Biosfera“, como parte integrante da Reserva de Biosfera da Mata Atlântica, mas com identidade própria, dadas as suas peculiaridades como entorno de uma das maiores metrópoles do mundo.

Fazendo parte da área demarcada pela UNESCO, a Reserva do Morro Grande, em Cotia, estende-se por 10.870 hectares dentro do município e, pela sua extensão contínua, torna a região ponto vital nas trocas gasosas entre o “organismo urbano metropolitano” - com seus domos de poluição - e as já referidas áreas verdes do Cinturão. A Reserva está atualmente sob jurisdição da SABESP em função dos seus mananciais e constitui-se num riquíssimo remanescente de Mata Atlântica brasileira ainda preservado, com fauna e flora diversificados e ainda pouco estudados, mesmo estando a menos de 40 km da praça da Sé, marco zero da cidade de São Paulo. Os seus mananciais são responsáveis pelo abastecimento de água de boa parte da região metropolitana, sendo a sua preservação de importância e relevância não só municipal ou regional, mas estadual e mesmo nacional dada a quantidade de pessoas a que serve.

É desnecessário dizer que o planejamento urbano em áreas do Cinturão Verde é condição básica para a qualidade de vida de seus habitantes e essencial para a preservação da fauna e flora locais. As diretrizes da UNESCO para a Reserva da Biosfera falam ainda em desenvolvimento de usos e práticas sociais sustentáveis. Conseqüentemente, torna-se necessário o planejamento de uma infraestrutura adequada à prossecução dessas metas, bem como sua inerente ordenação territorial.

Grandes eventos internacionais como a Copa do Mundo de 2014 são excelentes oportunidades para investimentos em infraestruturas que podem mudar a cara das cidades que as recebem. Os exemplos do legado de Barcelona e Sevilha em 1992 e Lisboa em 1998 podem e devem ser seguidos. O Oeste da Região Metropolitana de São Paulo possui um vasto acervo de patrimônio histórico e natural que a ser bem aproveitado poderá mudar para sempre a sua vocação. No entanto ninguém lhe reconhece nem mesmo uma identidade própria. Já citamos uma vez um texto de Rogério Ruschel que é totalmente apropriado ao contexto: “As comunidades, assim como as pessoas e empresas, têm “personalidade” e imagem. Personalidade é o conjunto de características do objeto e a imagem reflete a percepção de terceiros desta personalidade. A Vila Madalena, o Embu das Artes e a Bahia, por exemplo, têm “personalidades” próprias e imagens definidas. A Vila Carrão, o estado do Espírito Santo e a Zâmbia têm “personalidades” próprias, mas a imagem pode ser difusa. Aqui acrescentamos nós: a Serra da Cantareira tem personalidade própria e imagem definida. E o Morro Grande? Continuemos com Rogério Ruschel: “O guru de marketing Philip Kotler, no livro “Marketing Público - Como atrair investimentos, empresas e turismo para cidades, regiões, estados e países”, demonstrou que uma imagem positiva agrega valor aos locais, mas ela só pode ser construída a partir de uma “personalidade” verdadeira.

Quem já visitou o Embu das Artes, a Aldeia de Carapicuíba ou Santana de Parnaíba sabe que essa personalidade existe e é verdadeira. Quem acessar o Google Earth e pairar por cima da mancha verde adjacente a Oeste da cidade de São Paulo não tem como não ver que essa identidade existe, e como existe!

Com o volume de investimentos em infraestrutura já anunciados para a Copa de 2014, os municípios da região bem como o Governo do Estado tem uma oportunidade única para de uma vez só resolverem vários problemas: 1) elaborar para a região um Plano Diretor exigente que privilegie o desenvolvimento sustentável e integre os vários municípios da região sob supervisão estadual ou de um conselho inter-municipal 2) criar uma imagem sólida na região de pólo de turismo histórico e natural que se beneficiará com o fluxo de visitantes e a projeção dadas pela Copa mas que perdurará depois disso, para usufruto das populações locais, estimulando o turismo interno 3) criar um mercado de trabalho associado a essas atividades que beneficiará uma região carente de emprego 4) diminuir com isso os deslocamentos diários de populações na região metropolitana e atenuar assim um dos principais problemas da região 5) preservar os recursos naturais, nomeadamente a Reserva de Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo, compromisso assumido com a UNESCO aquando da sua criação.

Haja vontade política.

 

  • Martha Nader said,

    Temos orgulho de sempre citar as nossas fontes. Esperamos o mesmo em troca.

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