Energia em França: Leviathan devora os homens

Publicado por ecohabitar a July 22, 2009 em Eficiência Energética |

As iniciativas europeias por matrizes energéticas mais limpas e pela adoção de tecnologias economizadoras têm sido algumas vezes por nós aqui referidas como exemplo a seguir. No entanto…

Numa demanda que opunha a EDF (Electricité de France), principal fornecedora de energia elétrica da França, à Voltalis, uma pequena empresa que instala medidores inteligentes nas residências dos consumidores, gerenciando o seu consumo, a Comissão Reguladora de Energia da França decidiu que a Voltalis deveria indenizar a EDF pela economia de energia que ela proporciona a seus clientes uma vez que isso implicaria num decréscimo de vendas para a produtora.

Os aparelhos, chamados de Bluepod, são distribuídos gratuitamente aos consumidores e são plugados no relógio medidor, comunicando-se com a companhia pela internet. Quando, por exemplo, a demanda de consumo no Verão se aproxima de um pico, o sistema desliga automaticamente os ares condicionados de milhares de consumidores, dispostos a abdicar por poucos minutos desse conforto, evitando a necessidade de produção de energia adicional para fazer face a essa situação pontual.

A empresa declara que a sua tecnologia pode economizar até 10% nas contas de luz dos utilizadores e aínda bilhões em investimentos às empresas produtoras, que deixam de ter que construír novas usinas destinadas apenas a suprir essa demanda de pico.

O modelo de negócio da Voltalis prevê que seja o operador da rede elétrica quem a remunera pelo serviço de gerenciamento do equilibrio entre a demanda e a oferta de energia.

A decisão da entidade regulatória, afirmando que a Voltalis teria que indenizar as produtoras de energia pela eletricidade gerada mas não consumida pelos seus clientes, levou a muitas acusações de excessiva promiscuidade entre interesses estabelecidos no setor energético. Uma matéria da revista de negócios Challenges questiona a influência excessiva que os produtores de eletricidade na França (incluíndo a estatal EDF) teriam sobre a entidade reguladora.

Não é portanto apenas no Brasil que ocorrem absurdos semelhantes de claro atropelo dos interesses do consumidor e de tráfico de influências com entidades públicas.

As últimas notícias do caso contam que, depois de em um primeiro momento ter apoiado a decisão da entidade reguladora, o ministro da energia e ambiente Jean-Louis Borloo, talvez por causa da tempestade política que se seguiu à decisão, veio declarar que um grupo de trabalho será nomeado e terá até ao fim deste ano para propôr as mudanças legais e a implementação da regulamentação necessária para que, não deixando de se favoreçer a economia de energia, se salvaguarde o respeito pelos interesses de todas as partes envolvidas.

Os termos e o prazo da declaração do ministro (até ao fim do ano, grupo de trabalho, interesse de todas as partes) não auguram nada de bom para a Voltaris nem para os consumidores franceses.

com informações do New York Times, La Tribune e Challenges

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