No Brasil, Banco sustentável rima com Saci Pererê

Publicado por ecohabitar a September 21, 2009 em Opinião |

Notícia do caderno dinheiro, da Folha online de hoje dá conta que o “Bradesco foi a instituição financeira mais rentável entre os bancos da América Latina e dos Estados Unidos, aponta um levantamento feito pela consultoria Economática, considerando os balanços relativos ao primeiro semestre deste ano“. A consultoria adianta aínda que “o Bradesco supera em rentabilidade grandes instituições financeiras americanas, como American Express, Goldman Sachs e Wells Fargo. Outros dois bancos brasileiros estão entre os 20 mais rentáveis do continente: Itaú-Unibanco e Banco do Brasil, respectivamente, que somente perdem em rentabilidade para o próprio Bradesco e o americano Fifth Third Bancorp. A filial brasileira do grupo espanhol Santander ocupa a 13ª posição.

O mesmo jornal, informava no dia 10 de Setembro que o “spread” (a diferença entre o que as instituições pagam para captar recursos e o que cobram dos clientes) aplicado pelos bancos no Brasil é o segundo maior do mundo, ficando apenas atrás do Zimbábue, apesar de a taxa de inadimplência no país não estar nem entre as dez maiores do planeta.

Segundo levantamento do Fórum Econômico Mundial com base em dados do ano passado, o “spread” dos bancos brasileiros ficou em 35,6 pontos percentuais, maior do que a média das instituições financeiras de 127 países.

Somente o Zimbábue, cuja economia vive situação caótica e onde a inflação chegou na casa dos 231 milhões por cento em julho do ano passado, a diferença entre os juros captados e os cobrados foi maior: 457,5 pontos percentuais. (…)

Ao mesmo tempo, a inadimplência no Brasil, que é uma das explicações usadas pelos bancos para justificar os juros altos, era a 16ª mais alta do mundo (em uma lista menos abrangente, com 34 países), de acordo com dados do FMI referentes ao quarto trimestre de 2008 -quando a crise global estava em um dos seus momentos mais agudos. Os números do Fundo mostram ainda que a taxa de inadimplência no país vem caindo nos últimos anos.(…)

Para Luis Miguel Santacreu, analista da Austin Rating, é principalmente por meio dos juros altos (que se traduzem no segundo maior “spread” do planeta) que os bancos brasileiros estão entre os mais rentáveis do mundo, apesar de a relação entre crédito e PIB estar abaixo da média global.

Sobre o calote, ele disse que os bancos colocam nos empréstimos uma “estimativa que não se concretiza na vida real”.(…)

Não deixa de ser curioso, portanto, assistir à propaganda que todos os bancos, em maior ou menor grau, têm desenvolvido em torno das suas supostas práticas sustentáveis. É sabido que para que uma atividade se possa apresentar como sustentável terá que dar igual ênfase aos três pilares que a constituem (econômico, ambiental e social). É que se assim não for, e como em qualquer tripé, se um dos apoios falhar a coisa não se sustenta.

Assim, um banco, cuja atividade se desenvolve em torno do pilar “economia”, se declara sustentável porque apresenta ótimas práticas sociais ou constrói agências com painéis solares no telhado, e no entanto comete spreads como os que assistimos no Brasil, é tão sustentável quanto uma usina termoelétrica a carvão que, apesar de acabar com a saúde dos que vivem ao seu redor, se dispõe a doar material escolar às escolas da região.

  • Giuliano Moretti said,

    Esta matéria vem perfeitamente ao encontro deste meu artigo. “Greenwashing no setor bancário é percebido pelo cidadão” (http://preservaambiental.com/artigos/materias/greenwashing.htm).

  • Martha Nader

    Martha Nader said,

    Muito bom artigo, obrigada pela indicação.

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