Declives: adequando os projetos à natureza

Publicado por ecohabitar a March 11, 2011 em Design Inteligente, Preservação Ambiental, Projetos | Seja o primeiro a comentar

in PINIweb:

Grande parte dos projetos brasileiros segue a cultura técnica da área plana, mesmo em locais com relevos acidentados. A crítica é do geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos e tem como alvo arquitetos, engenheiros responsáveis por implantações imobiliárias, urbanistas e empresas municipais e estaduais de habitação.

Segundo Rodrigues, os projetistas deveriam adequar os projetos à natureza, e não modificá-la de acordo com o projeto. O geólogo garante que, se utilizados métodos científicos e técnicas construtivas adequadas, locais com declividade de até 35% de declividade podem receber construções de forma segura. (…)

O fato é que não possuímos no país uma cultura técnica arquitetônica e urbanística especialmente adequada à ocupação de terrenos com acentuada declividade. Isso se verifica tanto nas formas espontâneas utilizadas pela própria população de baixa renda na autoconstrução de suas moradias, como também em projetos privados ou públicos de maior porte que contam com o suporte técnico de arquitetos e urbanistas e têm, apesar do erro básico e grave de concepção, sua implantação autorizada pelos órgãos municipais responsáveis.

Em ambos os casos (…) prevalece infelizmente a cultura técnica da área plana. Isto é, por meio de cortes e aterros obtidos por operações de terraplenagem obsessivamente se produzem os platôs planos sobre os quais irá ser edificado o empreendimento. Esse tem sido o cacoete técnico que está invariavelmente presente na maciça produção de áreas de risco nas cidades brasileiras que, de alguma forma, crescem sobre relevos mais acidentados.

É imperiosa a necessidade do urbanismo brasileiro incorporar em sua teoria e sua prática os cuidados com as características geológicas dos terrenos afetados. Essa nova cultura automaticamente levaria a uma estreita colaboração entre Arquitetura, Geologia e Geotecnia. Como concisa diretriz, podemos entender que está colocado o seguinte desafio à arquitetura e ao urbanismo brasileiros: usar a ousadia e a criatividade para adequar seus projetos à natureza, em vez de, burocraticamente e comodamente, pretender adequar a natureza a seus projetos.

matéria completa disponível aqui

Economizar em projeto?

Publicado por ecohabitar a February 28, 2011 em Design Inteligente, Projetos | Seja o primeiro a comentar

A construção de uma casa é com certeza o maior empreendimento que a maioria dos brasileiros poderá encarar em suas vidas, pela magnitude da empresa, pelo esforço financeiro e mesmo pela carga emocional que representa a construção de um lar que irá abrigar a sua família. Ante essa realidade seria de esperar que uma tal empreitada fosse rodeada dos maiores cuidados especialmente no que concerne ao planejamento da sua execução. Não é assim que acontece.

De fato, a grande maioria das construções que aprovam o projeto de arquitetura nas Prefeituras (e vamos só falar destas, excluindo desta abordagem as construções irregulares) opta por partir direto para a obra, passando por cima de projetos tão importantes quanto o de Cálculo Estrutural, o Projeto Elétrico e o Hidrosanitário, achando que com isso economiza dinheiro que poderá depois usar em acabamentos bacanas no banheiro. O que o cidadão não vê é que essa economia acaba saindo cara já durante a execução da obra.

Tomemos por exemplo o Projeto ou Cálculo Estrutural e o seu “irmão” Laudo de Sondagem de Solo e vejamos o que diz a respeito o site engenharia.com.br: O Projeto Estrutural, também chamado de Cálculo Estrutural é o dimensionamento das estruturas, geralmente de concreto armado, que vão sustentar a edificação, transmitindo as suas cargas ao terreno. Elaborado por um engenheiro civil, esse projeto é de fundamental importância, pois é o responsável pela segurança do prédio contra rachaduras (trincas) e desabamentos. Uma estrutura com lajes, vigas, pilares e fundações superdimensionados representa custos altos e não significa obrigatoriamente segurança. É preciso que haja um perfeito equilíbrio entre o concreto e o aço dentro dos elementos estruturais para que as peças sejam consideradas seguras e, conseqüentemente, toda a obra. Uma estrutura mal dimensionada pode, até, não cair, mas trazer problemas como trincas que são, na maioria das vezes, de solução muito difícil e cara.

Para elaboração do Projeto Estrutural será necessário, além do Projeto Arquitetônico, o Laudo de Sondagem. Esse documento, detalhadamente confeccionado por empresas especialistas em sondagens, apresenta o perfil do solo abaixo do nível zero, ou seja, com todos os tipos de camadas de solos e suas respectivas resistências à compressão. Este laudo é necessário para o dimensionamento adequado das fundações. Sem ele o engenheiro projetista de estruturas deverá prever, por medida de segurança, resistências do solo inferiores, aumentando conseqüentemente as bases das fundações.

Ora o que isto quer dizer é que a economia feita com o laudo de sondagem e o cálculo estrutural vai embora assim que, na execução dessas mesmas fundações, o encarregado pela obra duplica o ferro e o concreto que seriam necessários para o edifício em questão, por não querer ariscar na segurança.

Em Arquitetura, como em quase tudo o resto, um planejamento cuidadoso é via aberta para o sucesso da empreita. Com um conjunto completo de projetos o futuro proprietário da casa terá uma obra mais rápida, sem surpresas ou sustos de cariz financeiro e sem margem para improvisos. Corrigir um erro no decurso de uma obra, implica em jogar material fora, causar desperdício e várias horas de trabalho. Corrigir um erro em um projeto custa apenas um click.

Ferramentas de projeto: maquetes virtuais

Publicado por ecohabitar a January 28, 2011 em Design Inteligente | Leia o primeiro comentário

Os modelos 3D para além de ajudar no trabalho do arquiteto, têm um papel importante na etapa de desenvolvimento do projeto feita em parceria com o cliente. Na verdade, a maioria dos leigos, ao olhar para plantas e cortes de um projeto em duas dimensões, tem grande dificuldade em transformar essa informação em um objeto tridimensional. Em residências unifamiliares, o recurso à maquete tradicional acabava não acontecendo muito, já que poderia representar um acréscimo considerável no custo do projeto. Daí que, não poucas vezes, o cliente percebia que o resultado “não era bem aquilo que ele queria” tarde demais, quando a obra já era iniciada.

A maquetes virtuais, têm, por isso, uma série de vantagens. Os seus recurso visuais permitem panorâmicas e visitas pelo interior do imóvel, tornam as reuniões de acompanhamento com os clientes muito mais produtivas e facilitam as suas tomadas de decisão, já que diferentes propostas podem ser examinadas no ato e com um grau de compreensão impossível de atingir sem este recurso.

Como o cliente “vê” a casa e pode mesmo fazer um “test-drive” do produto acabado antes de gastar um tostão com a obra, a ansiedade de ter a casa pronta para ver o resultado final diminui consideravelmente. Portanto, para além de possibilitar uma melhor fluidez no trabalho e por isso reduzir prazos e custos, as maquetes virtuais fazem também bem à saúde e aos relacionamentos entre arquitetos e seus clientes.

Lâmpadas: a conta na ponta do lápis

Publicado por ecohabitar a January 17, 2011 em Eficiência Energética | Leia o primeiro comentário

As preocupações com os futuros custos de utilização do imóvel são uma constante nos projetos da Ecohabitar. Também aqui no blog gostamos de divulgar as inovações tecnológicas na área de eficiência energética que poderão contribuir para a redução das contas no final do mês.  Nesse âmbito temos acompanhado com interesse a revolução que o mercado de lâmpadas tem sofrido nos últimos anos.

Na semana passada, à semelhança do que já havia sucedido nos Estados Unidos e União Europeia, o governo brasileiro decretou o fim das lâmpadas incandescentes no país. A tecnologia centenária apenas consegue transformar em luz cerca de 12% da energia que consome, sendo que o restante se perde em calor.

As soluções alternativas passam pelas mal amadas fluorescentes e pelas modernas e ainda caras LED. Na hora da escolha, o cidadão comum encontra um série de informações desencontradas que comparam durabilidade com preço, desempenho com tonalidade de luz, alhos com bugalhos. E então, na dúvida, vai de incandescente.

Pensando nisso o Planeta Sustentável publicou uma ótima matéria sobre o assunto em que, preto no branco, de uma forma muito simples, explica, com um exemplo concreto, os critérios que devem ser considerados quando se comparam as diferentes tecnologias disponíveis :

Para iluminar um ambiente de 15 m2, com pé-direito de 2,80 m, forro branco, paredes em tom areia e piso de madeira, três lâmpadas incandescentes comuns de 100 w garantem a iluminância média (150 lux), recomendável pela Norma NBR 5 413 para atividades gerais em uma residência. Veja o que acontece quando substituímos essas lâmpadas por outras equivalentes, mas com tecnologias diferentes. Compare e economize!

SISTEMA 1
3 lâmpadas comuns incandescentes (R$ 2,50 e 100 w cada)
Fluxo luminoso nominal - 1 620 lúmens
Índice de reprodução de cor - IRC - 100%
Quantidade média de luz no ambiente - 150 lux
Vida média da lâmpada - 750 horas
Gasto com compra de lâmpadas em 1 ano - R$ 10
Energia gasta em 1 ano - R$ 126
Total de gastos em 1 ano - R$ 136

SISTEMA 2
3 lâmpadas halógenas energy saver (R$ 6,50 e 70 w cada)
Fluxo luminoso nominal - 1 450 lúmens
Índice de reprodução de cor - IRC - 100%
Quantidade média de luz no ambiente - 135 lux
Vida média da lâmpada - 2 mil horas
Gasto com compra de lâmpadas em 1 ano - R$ 9,75
Energia gasta em 1 ano - R$ 88,20
Total de gastos em 1 ano - R$ 97,95

SISTEMA 3

3 lâmpadas fluorescentes compactas (R$ 18,50 e 23 w cada)
Fluxo luminoso nominal - 1 400 lúmens
Índice de reprodução de cor - IRC - 80 a 89%
Quantidade média de luz no ambiente - 130 lux
Vida média da lâmpada - 6 mil horas
Gasto com compra de lâmpadas em 1 ano - R$ 9,25
Energia gasta em 1 ano - R$ 28,98
Total de gastos em 1 ano - R$ 38,23

SISTEMA 4

3 lâmpadas led (R$ 206 e 8 w cada)
Fluxo luminoso nominal - 600 lúmens
Índice de reprodução de cor - IRC - 80%
Quantidade média de luz no ambiente - 123 lux
Vida média da lâmpada - 70 mil horas
Gasto com compra de lâmpadas em 1 ano - R$ 25,75 (total diluído em 24 anos)
Energia gasta em 1 ano - R$ 10,16
Total de gastos em 1 ano - R$ 35,91

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A obra como uma indústria

Publicado por ecohabitar a December 30, 2010 em Design Inteligente, Opinião | Seja o primeiro a comentar

in Techné

Em entrevista concedia à Techné o Engenheiro Carlos Schettert relativiza a situação atual da construção civil de escassez de mão de obra. Para ele, essa não é - ou pelo menos não deve ser - a maior preo­cupação do setor. A principal lição que toda a cadeia da construção deve aprender neste momento de grande crescimento é o planejamento.

Segundo Schettert o futuro da construção no Brasil será a almejada montagem no canteiro. Por enquanto, o engenheiro analisa que estamos na fase de desenvolvimento industrial, ainda tornando custos de sistemas industrializados compatíveis com o mercado. Aquele conceito bem conhecido de que obras na Europa ou nos Estados Unidos gastavam mais tempo em projeto e planejamento, enquanto no Brasil era o contrário, “já virou lenda”, conta Schettert. Hoje, não é admissível improvisação e retrabalho. Outros conceitos, como desempenho, sustentabilidade e coordenação modular, também foram discutidos pelo engenheiro na entrevista. Seguem alguns excertos da conversa:

A logística das obras ainda segue um padrão artesanal. Como é possível melhorar esse aspecto?
Repensando a obra como uma indústria. Temos que investir em equipamento, conceber um planejamento do canteiro, do transporte interno e dos processos produtivos, aproximando a cadeia produtiva, que é parte integrante. Utilizo ferramentas como Just in Time e a empresa [fornecedora] como parceira. Por exemplo, não uso mais lata de tinta, e sim um saco plástico com volume adequado e entregue no tempo adequado para cobrir determinado ambiente. Assim, elimino o desperdício, além do problema do lixo tóxico.

(…)

Sua construtora vem sentido a necessidade de incorporar processos mais industrializados?
A industrialização tem que ser um conceito genérico, como um processo produtivo bem desenhado. Posso citar exemplos de casos clássicos, como armadura dobrada, até processos mais elaborados como kanban, que é uma ficha em que se desenha a alvenaria, o número certo de blocos. O operário segue a lista, recebe a quantidade certa de material, e não há desperdício. Começa, assim, uma redução significativa das perdas, do tempo, do retrabalho. A industrialização sempre vai agregar valor para as empresas: diretamente, pelos resultados práticos, ou indiretamente, como um conceito a dar resultado no futuro.

(…)

Como equilibrar custo e desempenho em um empreendimento?
Desempenho deve ser pré-requisito. A partir dele, deve-se buscar custos competitivos, e, consequentemente, os processos que melhor se ajustem. Desempenho é primordial, não se admite mais o custo pós-obra. Então, são necessários produtos e processos com desempenho, para que o cliente final fique satisfeito. A esmagadora maioria das pessoas que compram um imóvel está fazendo a compra de sua vida. Esse produto tem que apresentar bom desempenho. Não se pode fazer, em nome da velocidade ou da demanda extraordinária, algo que não tenha desempenho.

(…)

Quais são os gargalos técnicos da construção atual? O que precisa ser atacado com maior urgência?
Hoje nosso maior problema é a aprovação de projetos. Quando começou essa demanda extraordinária de obras, os órgãos e concessionárias que aprovam os projetos não cresceram na mesma proporção que nós, eles ainda contam com a mesma estrutura. Um projeto que era aprovado em seis meses, hoje leva um ano; uma licença ambiental que saía em 90 dias hoje também leva mais de um ano. E nós multiplicamos por dez nossa capacidade produtiva.

E na produção, quais as dificuldades?
Além do gargalo da mão de obra, há um gargalo em alguns insumos, mas algumas fábricas estão se ajustando. No passado recente, o cimento e o aço subiram, começamos a importar, e a recessão do mercado internacional favoreceu a importação, pois está sobrando material no exterior. Um terceiro gargalo são os repasses bancários. A velocidade com que nós construímos e realizamos processos de transferência de contrato com os usuários está maior que a capacidade dos bancos de processá-las. Quando o cliente vai assinar o contrato, o banco leva muito tempo. É inadmissível.

(…)

A construtora já sente uma demanda dos compradores para que haja sistemas ou ações sustentáveis nos novos empreendimentos? Qual é a maior procura?
Vejo uma evolução. É preciso que comecemos a pensar sistemicamente no nosso envolvimento com o meio ambiente, estamos envolvidos no processo ambiental como um todo. Isso vai desde a concepção do projeto ao resíduo final. Significa não só aproveitar a água de chuva em reservatórios separados, mas implementar sistemas factíveis com os conceitos de sustentabilidade. Se um terreno não propicia certo sistema, não tem sentido aplicá-lo. Nossos projetos, nossa legislação, nossa exigência e cultura têm que evoluir paralelamente.

E em relação aos clientes, eles já procuram por empreendimentos que apresentem ações sustentáveis?
No ano passado, quando assistimos a grandes catástrofes em todo o planeta, houve um bombardeio na mídia sobre a exigência e conscientização da população como um todo. Obviamente, começamos a perceber que o processo, como vem sendo feito, precisa evoluir, para que possamos conviver no meio ambiente. Essa evolução passa desde o conceito mais radical ao mais tolerante. Estamos buscando um equilíbrio adequado para que possamos potencializar nossas reservas com desenvolvimento humano. O assunto é amplo e complexo, mas é indispensável e urgente. Nas obras de interesse social, a exigência é menor, mas deveria haver uma conscientização dos órgãos registradores, dos órgãos produtores, das empresas e fornecedores.

matéria completa aqui

Leia mais sobre construção modular e industrializada:

Habitação industrial: alguns casos

Casa: um objeto industrial

Quanto gasta a sua casa: um novo paradigma imobiliário

Publicado por ecohabitar a December 15, 2010 em Design Inteligente, Eficiência Energética, Opinião, Uso Racional da Água | Leia o primeiro comentário

No mercado brasileiro, à semelhança do que já sucedeu em outras latitudes, assiste-se a uma progressiva universalização do crédito. No caso do mercado imobiliário, o montante total financiado no país bate novos recordes a cada trimestre, os prazos de financiamento estendem-se a 30 anos, o percentual do empréstimo já bate nos 80% do preço do imóvel (em alguns casos chega mesmo à totalidade) e construtoras que financiam diretamente possibilitam mesmo pagar o valor de entrada em até 10 vezes no cartão de crédito.

Chegamos assim a uma situação impensável há poucos anos: o cidadão comum pode assinar a escritura de compra do seu imóvel sem ter que meter a mão no bolso. O critério que orienta a compra deixa de ser o valor da etiqueta com o preço e passa a ser o montante da parcela mensal a ser paga. Ante a perspetiva de uma casa nova, a pergunta a ser feita deixa de ser “será que tenho o suficiente para comprar?” para passar a algo como “será que terei todos os meses o suficiente para conseguir mantê-la?“.

Nesta nova realidade, o custo do imóvel passa a ser o valor da prestação mensal do financiamento acrescida dos demais encargos mensais como o seguro obrigatório, condomínio, contas de água, luz, etc.  Assim, dois imóveis com o mesmo preço de venda e financiados nas mesmas condições podem, no entanto, ter custos bem diferentes dependendo de como o projeto arquitetônico de cada um tratou temas como eficiência energética, racionalização do consumo de água ou simplicidade de manutenção.

Em um mercado imobiliário em que a grande maioria ainda projeta e constrói com foco na venda e não na futura utilização do imóvel, unidades menos gastadoras ganham uma clara vantagem competitiva que poderá se acentuar se se confimarem as projeções para os próximos anos de elevação de preços de água e eletricidade acima da inflação.

Vanderley John sobre a Construção Civil no Brasil: Quase Insustentável

Publicado por ecohabitar a November 12, 2010 em Atualidades, Opinião | 4 Comentários

Na edição de Setembro da revista Techné, que aqui já referimos, inclui uma excelente entrevista com o Prof. Vanderley John da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo onde este alerta para o greenwashing, denuncia um mercado de venda de selos e critica o carater artesanal da produção na construção. Reproduzimos partes da entrevista abaixo, com a recomendação que se siga o link colocado no final do texto para ler a matéria completa.

Na construção, onde o greenwashing se encontra?

Há muitos selos cujos significados não conhecemos. Estão começando a proliferar selos de materiais, e existirão cada vez mais. As pessoas compram com selo porque, por um lado, querem um indicativo de que aquele produto atende melhor ao problema de sustentabilidade. Por outro lado, muita gente compra porque quer ser percebida como uma pessoa que se preocupa com sustentabilidade. Existem até selos do tipo “amigo do meio ambiente” que têm um critério muito objetivo e inquestionável: você paga, você leva. (…)

No que a construção vem afetando o ambiente, e como ela pode contribuir?

No Brasil, aproximadamente metade da extração de matérias-primas não renováveis acaba na construção. As obras são muito intensivas em uso de materiais. A geração de resíduos na construção está bem maior do que resíduos de lixo urbano, estamos demolindo mais e construindo mais. No Brasil, a construção é o setor industrial que mais gera resíduos. Por exemplo, o aço utilizado gerou resíduos também na fábrica, da mesma forma o alumínio, e assim por diante. De cada 1 m³ de madeira utilizado, outro 1 m³ ficou aos pedaços, para trás.

Já existe uma garantia em relação ao fornecedor de materiais, uma certificação ou selo?

Eu não acredito que selo tenha um papel relevante na promoção da sustentabilidade de um país em desenvolvimento. Não existe nenhuma demonstração no mundo de que qualquer selo melhore o mercado. O que melhora o mercado é política pública, política setorial de médio prazo, consistente, com metas aplicadas a toda a construção. Em tese, os selos deveriam identificar produtos muito mais ecoeficientes que outros, mas alguns não o fazem. Além disso, os selos de edifícios se aplicam a obras grandes, corporativas etc., que representam uma parcela minúscula da construção brasileira e são tão sofisticadas e diferenciadas, que pouco inspiram outras. Uma solução para um prédio de US$ 100 milhões não é transferida para um prédio de escritórios de quatro pisos em uma cidade média. (…)

Não há muita compatibilidade entre a realidade  do Brasil e Europa, Estados Unidos. Até onde os modelos importados  de selo funcionam?

(…)  A sustentabilidade tem problemas globais, mas as soluções têm que ser localmente adequadas. No Brasil, a opção para diminuir a poluição dos automóveis é o uso do etanol, e nos Estados Unidos é o carro elétrico. Mas em São Paulo há prédios que, para se certificar, colocam tomadas para carros elétricos, que não existem. Fazem isso porque é um ponto barato. O problema das certificações é que elas precisam ser adequadas não só à realidade local mas às estratégias selecionadas para o país.

Há outros exemplos de soluções importadas que não funcionam?

Muitas pessoas colocam estacionamento de bicicletas mesmo que isso não faça sentido. Em Boston funciona, mas não na Cidade do México nem em São Paulo, que é quente e chuvosa no verão, não é plana e não tem ciclovia. Mas é um ponto barato, e a cidade está cheia de estacionamentos de bicicletas vazios. Isso é eticamente inaceitável. (…)

Há sistemas alternativos de geração de energia mais eficientes? Vale a pena adotar sistemas de aquecimento solar em edifícios habitacionais e casas?

Existe um grande exagero quando se fala nos benefícios econômicos pela adoção de aquecedores solares para população de baixa renda, parcialmente porque a tarifa elétrica da baixa renda é fortemente subsidiada. Porém, em muitas regiões é relevante. Do ponto de vista ambiental, não se reduz muito a emissão de CO2, mas se economiza investimento em geração de energia. Um chuveiro de R$ 24 pode custar US$ 2 mil em investimento em geração de energia para o governo. Faz sentido o uso de energia solar nos locais onde é necessária água quente. No Norte e Nordeste, talvez água quente não seja prioritário; no Sudeste é importante. Há problemas também para se instalar o aquecedor solar em edifícios multifamiliares, particularmente na integração com a companhia de água. (…)

Projetos que adotam conceitos de sustentabilidade ficam mais caros?

Sustentabilidade é um equilíbrio entre impacto ambiental, impacto social e impacto econômico. Se for economicamente inviável, não é sustentável. Pode ser ecoeficiente, verde, mas o compromisso de sustentabilidade em cada obra é: o que se pode fazer dentro do orçamento. Sempre é possível fazer muita coisa dentro do orçamento, como reduzir desperdício em obra. O SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo) mostrou que gestão de resíduos em canteiro baixa o custo da obra. Uma confusão vem do conceito de edifícios verdes, no qual não se preocupa com o aspecto social e o econômico, só é green, além de certificar soluções muito avançadas, que se destacam e são bastante diferentes. Construção sustentável sempre cabe no orçamento; se não cabe, não é sustentável. (…)

Qual é a maior dificuldade em relação à escolha de materiais? É saber a procedência?

Em primeiro lugar, ninguém coloca na equação a questão da informalidade, da procedência, da qualidade. Há telhas em manuais de meio ambiente que não resistem à água ou ao sol. São produtos reais no mercado. Mas, como elas são recicladas, entram em qualquer lista de certificação, porque material reciclado é quase sagrado. Isso é deprimente. E pessoas gastam muito mais para utilizar esses produtos, recomendado por um especialista em green building, pago pelo Estado. A única forma de selecionar materiais e soluções construtivas é fazer análise do ciclo de vida, e, para isso, é necessário fazer uma base de dados. (…)

Parece que sempre o setor da construção civil precisa de muitos primeiros passos, muita organização básica. Você vê desta forma?

Estou falando de coisas “picadas”, mas quando se junta tudo forma-se uma estratégia. Começa mudando a mentalidade das lideranças, depois a mentalidade de outras pessoas, e em certo tempo isso é incorporado no dia a dia da empresa. Fazemos sem nos dar conta. Conversando com outros setores, acho que o setor da construção é o que está discutindo mais a sustentabilidade. As tarefas serão grandes para todos nós, mas é uma oportunidade. E devemos começar a valorizar a criatividade de engenheiros. A criatividade está segregada nos setores de marketing e publicidade, e ela terá que vir para a engenharia. São oportunidades. Um dos melhores aspectos da sustentabilidade é que, embora haja várias maneiras de se ganhar a vida, algumas delas dão orgulho à pessoa.

entrevista completa aqui (necessário cadastramento)