Selo Aqua: O que interessa é o desempenho

Publicado por ecohabitar a September 30, 2009 em Atualidades |

O sistema norte-americano Leed de certificação de sustentabilidade de imóveis é o que maior projeção tem conseguido no Brasil. No entanto, a Fundação Vanzolini lançou em abril de 2008 o Aqua, baseado no sistema HQE francês. Manuel Carlos Reis Martins, coordenador executivo do Processo Aqua, concedeu uma entrevista à revista PROJETODESIGN onde falou sobre certificação, sustentabilidade e o selo Aqua. Seguem alguns excertos:

O Processo Aqua foi lançado em abril de 2008 e mesmo nessa fase inicial em que temos poucos certificados já surgiu o interesse pela certificação de hotéis e comércio. Também houve interesse pela certificação residencial, mas o processo é um pouco mais demorado porque os itens de conforto, que são o ponto principal, mudam muito.(…)

Em um hotel ou em um escritório as condições de conforto não são as mesmas de uma residência. No Brasil, a não ser em regiões específicas, as casas e apartamentos usam menos ar condicionado que os escritórios. Em termos de aquecimento é a mesma coisa. Por outro lado, a acústica em uma residência é mais exigente que num escritório e isso também vale para um quarto de hotel. Como são as condições acústicas e de conforto térmico em uma sala? Quais são as condições sanitárias de uma cozinha? Isso vai levar em conta basicamente o tipo de revestimento, mas há a acessibilidade e normas para alturas de balcões. Isso não existe em um prédio de escritórios.

Por quanto tempo vale esse certificado?

O certificado da fase Programa é válido até sair o da fase de Concepção, e este até a certificação da fase de Realização, na entrega da obra. E o certificado final vale por um ano. Essa não é uma certificação que se renova depois. Todos os elementos necessários ao bom desempenho do prédio em uso, que envolvem arquitetura e sistemas, já têm que estar ali.
Não existem fatores que podem de alguma forma alterar o desempenho desses sistemas durante o uso?
Existem, e por isso terá outra certificação depois, que poderá ser renovada periodicamente. Ainda estamos terminando de elaborá-la e não foi definido o prazo para renovação, mas acredito que serão auditorias anuais. Isso porque aquele sistema de gestão que se estabeleceu para garantir o atendimento desde o programa até a entrega da obra não é igual ao de gestão do uso. Uma coisa é projetar e construir, outra é usar. Os agentes que desenvolvem o programa, o projeto e constroem são uns, os que controlam a operação do edifício são outros. Se o síndico ou o condomínio quiserem manter a certificação ao longo do tempo, terão que estabelecer um sistema de gestão e de controle do uso, e nisso estarão incluídas boas práticas ambientais. Quem vai operar terá que garantir que serão mantidos os desempenhos dos sistemas nos níveis previstos. Isso será feito por meio de medições, registros, relatórios de desempenho. Além da avaliação documental, o operador mostrará também os sistemas em funcionamento. Há, por exemplo, um critério que contempla gestão de resíduos na operação do edifício, com condições sanitárias adequadas e aproveitamento pela cadeia local. (…)
Os critérios de certificação são flexíveis?
Sim. No Aqua ninguém ganha pontos só por colocar determinada coisa no prédio. Por exemplo, o sistema solar para aquecimento de água vai garantir pontuação no Leed [certificação norte-americana Leadership in Energy and Environmental Design, concedida pelo United States Green Building Council]. É certo que esse sistema reduz muito o consumo de energia nas edificações. Mas qual sistema devo instalar em um prédio de escritório que terá somente dois ou três chuveiros lá embaixo para os funcionários da limpeza e da manutenção? Claro que será o elétrico, porque não se justifica instalar as placas de captação e um sistema de distribuição todo complicado para quando o chuveiro for aberto lá embaixo já sair água quente na hora, sem ter que perder litros e mais litros de água fria até a quente chegar ao ponto de consumo. Essa flexibilidade do Processo Aqua permite escolhas em favor do melhor desempenho. Limitar a vazão de água é outro exemplo. Em edifícios altos precisa ter limitador de vazão, isso é básico. O mais relevante é otimizar o consumo, buscar sistemas economizadores, calcular e justificar as escolhas com o quanto de água será economizado. Se for feito dessa maneira, o sistema vai alcançar nível excelente. Não existe um número de referência. Cada empreendimento tem seu próprio potencial de economia.
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